Sábado, Julho 04, 2009

Pra quê?

Episódio IV porque começa do IV

E veio o sangue, e do sangue, veio a vida, e da vida, a falta da vida.
Você não pode partir sem os seus mas pode partir e deixar o vazio de sua existencia.
Existencia medíocre, de bosta, que não vale nada, a menos que algum pobre coitado dependa de você, aí sim, de ego satisfeito, você tem mais algum tempo de hipocrisia pra viver.
Falsos amigos, estes são os verdadeiros, porque são honestos na falsidade, já os verdadeiros amigos, (ou seriam ingênuos carentes?), estes não passam de abridores de lata, que os cretinos dominantes cativam somente para poder usar quando a necessidade de abrir a latinha vier.
Sou fã de quem não é fã, mas quem não é fã nem gosta do conceito de fã e portanto abominam minha idéia, o que me deixa sozinho pra ser eu, fã de mim mesmo. Se o povo venera um deus, e esse deus venera seu povo, e se esse deus faz parte do povo, então esse povo venera a si próprio, assim como cada povo venera a si mesmo, criando um deus tão pobrinho que é até à sua imagem e semelhança. Não tem um forma linda, divina, com poderes soberanos e uma sabedoria maior que tudo.
Jecas.
Quem é o ser superior do ser superior? É uma sequência interminável e tediosa de seres superiores ao ser superior. Não há fim, e, se não tem fim, não tem resposta. Talve por isso a maldição de todas as explicações é que "você tem que ter fé". Claro que tenho que ter fé, porque não há reposta que satisfaça. E ficamos aqui nessa existência ridícula, cultivando a fé no que nem temos idéia, e esperando que antes da gente morrer algo de bom e divino nos aconteça.
Somos num sentido patético, bactérias da natureza. A natureza dominou o mundo e ela não gosta das vaquinhas e alces e bois e girafas e esses bichos maléficos que a destroem diariamente. Por isso ela permite que a gente, homenzinhos insignificantes, que a gente permaneça aqui fazendo predinhos e represas e nos sentindo os donos de tudo, mas desde que a gente coma as malditas vaquinhas e esquilos e galinhas que destroem a natureza.Somos para a terra como as rêmoras são para os tubarões, vivemos às custas dela, e achamos que somos espertos.
Bactérias da natureza. E com adoração de deuses e guerras. Que ridículo somos.

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

064 - 13/02/2009 - Real

Acordou cansado e sonolento. "O quê? O que é isso?"
"Que... Que cheiro é esse?"
"Isso... parece mofo, cheiro de mofo... meu braço... eu não... o que é que está acontecendo? Por quê eu não enxergo nada?"
Quando se deu conta, estava confinado em um local escuro, pequeno e sem luz. Quase não havia ar suficiente e o pouco ar que ainda restava vinha com um forte cheiro de umidade. E flores. Cheiro de flores.
Abriu os olhos em vão. Tudo estava tão negro como antes.
Tentou mover-se mas não conseguiu.
E tão logo apercebeu-se do que acontecia veio o desespero. O coração disparado provocava o aumento da respiração e o ar ficou denso e pesado. As mãos suavam. Tentou mover-se novamente. Gritou.
Gritou novamente.
Gritou até que sentiu-se tonto e pensou que poderia gritar ali pra sempre, que ninguém iria ouvir.
Tentou pensar em algo mas o ar estava ficando insuportável e a cabeça girava. As pernas já sinalizavam o início de contrações involuntárias. E dolorosas. Queria lembrar-se de como havia chegado ali, mas era quase impossível, com o corpo inteiro reclamando suas necessidades. O peito doía e agora, a cabeça também. Forçou os braços para cima em uma tentativa inútil de mover alguma coisa, de acontecer qualquer coisa, de fugir, de escapar daquele inferno negro. Tudo em vão.
A respiração acelerada só piorava tudo e tentou acalmar-se. Lembrou-se de estar sentado no sofá da sala, de estar vendo tv e de ter dormido. Depois disso não recordava mais nada. Pensou em como tinha chegado ali, se havia morrido, se havia estado cataléptico, se havia sofrido um ataque, mas a cabeça já estava confusa demais e os pensamentos foram perdendo a lucidez.
E então veio a calma.
Uma sensação de paz, de tranquilidade, e dormência.
Um entorpecimento que o deixava leve, enquanto iniciava-se a inação de seus órgãos.
"Então é assim que se morre" pensou.
E deixou-se levar pela deliciosa sensação de morrer, o fim da vida animal.
Sem perdição, sem pesar.
Sem almas perdidas pelo pecado.
Simples assim.
E num último segundo, deu-se conta que morrer era isso, tão parte da vida quanto nascer...

Dali saiu para outro lugar, não sei exatamente onde, mas via-se que o corpo era, agora, apenas um corpo.

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

063 - 04/02/2009 - O encontro

Tomei sol semana passada. Sim, porque se tomar sol no mesmo dia você fica com uma aparência ruim na pele, ressecada, sem brilho. E assim não gosto. Então cuidei-me de tomar sol, moderadamente, dias antes. Estava morena. Nem muito clara, nem muito escura. Olhei no espelho e gostei do que vi. Saí do banho e coloquei uma blusa branca, para contrastar, e um sutiã, bem discreto, porque se você quer conquistar um homem, você deve se vestir, para que ele, depois, queira te despir. Então assim me fiz. Cheguei até a janela, olhei minha barriga e minha perna e vi alguns pêlos brilhando. Pêlos branquinhos, invisíveis quase. A pele lisa, morena e com alguns pêlos mínimos, reluzindo com o reflexo do sol. Pêlos naturais. Voltei. Coloquei uma calcinha nova, branca também, para combinar com a blusa, no momento certo.
Perfume e uma calça jeans.
O salto não muito alto para não intimidar e não muito baixo para não parecer que me escondo. Soltei os cabelos. Mais um pouco do perfume na nuca. Batom e nada mais.
Não ia querer parecer diferente. Então somente um batom.
Encontrei-me com ele na porta de casa, que ao me ver desceu do carro e abriu a porta. Senti-me um pouco idiota com gesto tão elegante e antiquado. Mas não me importei, não estava ali para criticar. Estava ali para gostar, sentir e ser feliz.
Ligou o carro e partimos.
Eu não sabia onde iríamos mas deixei-me levar, e gostei da sensação de não estar no comando.
Falamos muito.
Rimos muito.
A música estava perfeita e até o cheiro do carro era bom.
Paramos na porta do teatro e aquilo me pareceu muito apropriado: Teatro, um jantar, uma noite, carinhos, sexo, tudo perfeito. Assistimos a peça e ri muito. Humor leve e descontraído. Homens interessantes te fazem sorrir. E deveriam fazer isso sempre. Adorei o teatro.
Depois fomos comer algo. Nesta parte sempre há um desencontro. As preferências são muito variadas. Fiz de conta que o que ele pedia também era meu prato preferido. Nada de estragar a noite. Comi pouco, saímos de novo. Rimos outra vez.
Conversamos sobre ir para algum lugar. Motel não. Hotel. Motéis tem um ar de 'viemos aqui só para transar'. Hotel não tem essa ansiedade.
Colocamos uma música calma e tomamos um vinho. Sem as cafonices que cercam este ritual. Bebemos sentados na beira da cama, rindo e falando sobre tudo. E sobre nada.
Até que ele me beijou. Depois do beijo, levantei-me e fui ao banheiro. Voltei em poucos segundos. Blusa branca e calcinha branca. Pele morena, lisa e perfumada. Ele olhou, assim como todo homem, para todas as curvas que estavam visíveis. Então tirou toda a roupa de uma vez só.
Estávamos em pé, eu o abracei e dançamos assim por alguns minutos, rindo muito do burlesco que era dançar pelado na frente do espelho.
Tomamos mais vinho, nos deitamos e nos abraçamos. O resto não foi tão mágico como o sonho que passava pela minha cabeça antes do encontro, mas não posso reclamar de nada. Foi carinhoso, foi gostoso, em alguns momentos foi safado, em outros foi ridículo. Mas mesmo que não tivesse sido bom, a noite antes do sexo fez tudo valer a pena.
Acho que estou apaixonada...

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Acordei tarde.
Dormi bastante pra não ficar cansado à noite. Finalmente ela havia aceitado meu convite pra sair e eu não ia desperdiçar a chance.
Não joguei bola aquele sábado. Nada ia me deixar menos qualificado naquele dia. Saí somente pra mandar lavar o carro. Lavei por dentro também para não fazer feio.
No final da tarde tomei um banho, vesti uma calça de pano, porque acho que calça jeans pega mal pra sair pela primeira vez, passei perfume e caprichei no desodorante sem perfume, pra não passar vexame e para não misturar os odores e sair parecendo uma loja do boticário.
Fui em uma casa de bebidas e comprei uma garrafa de whisky. Então fiquei pensando em algo que combinasse com whisky para beliscar. Quando você compra um vinho você pensa em queijo e quando compra cachaça pensa em algo gorduroso, mas e o whisky?
Eu não sabia o que comprar para combinar. Então vi em uma prateleira.
E resolvi meu problema com uma bandejinha de isopor de quibes. Num primeiro momento, whisky pareceu combinar com quibe. Até hoje eu não sei porque pensei isso.
Paguei e fui embora.
Encontrei-me com ela um pouco depois do horário e confesso que me atrasei de propósito para parecer desinteressado.
O whisky estava no banco de trás junto com a bandejinha de quibe mas achei melhor deixar aquilo ali mesmo e nem toquei no assunto. Eu já havia comprado ingressos para o teatro com antecedência, e funcionou. Ela gostou do teatro. Eu não assisti direito. Fiquei alternando os olhares entre ela e a peça. Valeu a pena porque ela gostou, por mim, pulava o teatro.
Depois fomos a um restaurante e comemos alguma coisa. Tentei pedir um prato imaginando o que ela gostaria, e, por sorte, acertei. Conversamos um pouco e aí pensei que já era a hora de ter aquela conversa que eu esperava. Chamei-a para ir a um motel mas ela preferiu hotel. Nem questionei.
Fomos para o primeiro hotel que achei e entramos.
Pedi um vinho para relaxar e até que foi legal porque ficamos conversando ali mesmo na beirada da cama, sem muita cerimônia. Só que eu já não estava aguentando mais e arrisquei um beijo. Ela aceitou e depois levantou-se para ir ao banheiro.
Preste atenção agora. Meu amigo, quando ela voltou, eu pensei: 'e eu querendo dar uma bandejinha de quibe pra ela...', minha nossa mãe do céu, o que que era aquilo.
Meus instintos animais saíram de seus estados adormecidos e fluíram por todo o corpo enrijecendo até a língua. Eu já estava pronto e fui logo tirando a roupa.
Então ela me abraçou e fez a coisa mais surpreendente que eu poderia imaginar: Começou a dançar comigo. Quem meu Deus, nessa hora, quer dançar? Mas segui o que parecia ser o ritual de aquecimento.
Foi constrangedor, mas foi bom. Depois disso tomamos mais um pouco de vinho e nos deitamos. E aí sim, aí nesta hora a terra parou. Eu não consigo nem descrever a magia e o êxtase de tudo que aconteceu. Não dá pra explicar o tamanho do prazer que eu senti. Foi demais. Ela era linda, e gostosa, e cheirosa, e tudo, e todos. E isso também, e aquilo também.
E apesar de todo aquele preparativo e teatro e jantar e fazer graça e dançar e coisa e tal, o sexo foi simplesmente bom demais. E toda a noite valeu a pena.
Acho que estou apaixonado por ela...

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

062 - 27/01/2009 - PAPO DE CRIANÇA - NOVA GERAÇÃO

- E aí, véio?
- Beleza, cara?
- Ah, mais ou menos. Ando meio chateado com algumas coisas.
- Quer conversar sobre isso?
- É a minha mãe. Sei lá, ela anda falando umas coisas estranhas, me botando um terror, sabe?
- Como assim?
- Por exemplo: há alguns dias, antes de dormir, ela veio com um papo doido aí. Mandou eu dormir logo senão uma tal de Cuca ia vir me pegar. Mas eu nem sei quem é essa Cuca, pô. O que eu fiz pra essa mina querer me pegar? Você me conhece desde que eu nasci, já me viu mexer com alguém?
- Nunca.
- Pois é. Mas o pior veio depois. O papo doido continuou. Minha mãe disse que quando a tal da Cuca viesse, eu ia estar sozinho, porque meu pai tinha ido pra roça e minha mãe passear. Mas tipo, o que meu pai foi fazer na roça? E mais: como minha mãe foi passear se eu tava vendo ela ali na minha frente? Será que eu sou adotado, cara?
- Sabe a sua vizinha ali da casa amarela? Minha mãe diz que ela tem uma hortinha no fundo do quintal. Planta vários legumes. Será que sua mãe não quis dizer que seu pai deu um pulo por lá?
- Hummmm. pode ser. Mas o que será que ele foi fazer lá? VIXE! Será que meu pai tem um caso com a vizinha?
- Como assim, véio?
- Pô, ela deixou bem claro que a minha mãe tinha ido passear. Então ela não é minha mãe. Se meu pai foi na casa da vizinha, vai ver eles dois tão de caso. Ele passou lá, pegou ela e os dois foram passear. É isso, cara. Eu sou filho da vizinha. Só pode!
- Calma, maninho. Você tá nervoso e não pode tirar conclusões precipitadas.
- Sei lá. Por um lado pode até ser melhor assim, viu? Fiquei sabendo de umas coisas estranhas sobre a minha mãe.
- Tipo o quê?
- Ela me contou um dia desses que pegou um pau e atirou em um gato. Assim, do nada. Pura maldade, meu! Vê se isso é coisa que se faça com o bichano!
- Caramba! Mas por que ela fez isso?
- Pra matar o gato. Pura maldade mesmo. Mas parece que o gato não morreu.
- Ainda bem. Pô, sua mãe é perturbada, cara.
- E sabe a Francisca ali da esquina?
- A Dona Chica? Sei sim.
- Parece que ela tava junto na hora e não fez nada. Só ficou lá, paradona, admirada vendo o gato berrar de dor.
- Putz grila. Esses adultos às vezes fazem cada coisa que não dá pra entender.
- Pois é. Vai ver é até melhor ela não ser minha mãe, né? Ela me contou isso de boa, cantando, sabe? Como se estivesse feliz por ter feito essa selvageria. Um absurdo. E eu percebo também que ela não gosta muito de mim. Esses dias ela ficou tentando me assustar, fazendo um monte de careta. Eu não achei legal, né. Aí ela começou a falar que ia chamar um boi com cara preta pra me levar embora.
- Nossa, véio. Com certeza ela não é sua mãe. Nunca que uma mãe ia fazer isso com o filho.
- Mas é ruim saber que o casamento deles é essa zona, né? Que meu pai sai com a vizinha e tal. Apesar que eu acho que ele também leva uns chifres, sabe? Um dia ela me contou que lá no bosque do final da rua mora um cara, que eu imagino que deva ser muito bonitão, porque ela chama ele de 'Anjo'. E ela disse que o tal do Anjo roubou o coração dela. Ela até falou um dia que se fosse a dona da rua, mandava colocar ladrilho em tudo, só pra ele pode passar desfilando e tal.
- Nossa, que casamento bagunçado esse. Era melhor separar logo.
- É. só sei que tô cansado desses papos doidos dela, sabe? Às vezes ela fala algumas coisas sem sentido nenhum. Ontem mesmo veio me falar que a vizinha cria perereca em gaiola, cara. Vê se pode? Só tem louco nessa rua.
- Ixi, cara. Mas a vizinha não é sua mãe?
- Putz, é mesmo! Tô ferrado de qualquer jeito.

Sábado, Dezembro 15, 2007

061 - 15/12/2007 - E foi assim...

E foi assim
eu entrei naquele hotel pela primeira vez com medo de tudo
Com medo de dar errado e até mesmo
medo de dar certo
Inseguro
Rindo de mim mesmo
Para tentar fazer
tudo parecer
um pouco mais normal
Sair do país
e deixar a família
a esposa e os filhos
os pais e os irmãos
os amigos
parentes
a padaria e a farmácia
a rua e a esquina
para se aventurar no desconhecido
Foi preciso coragem
e muito mais do que isso
Foi preciso conseguir dizer todo o tempo
Que tudo estava bem
Porque se alguém deposita todas as suas esperanças em você
Você tem sempre que dizer
que está tudo bem
Para que o outro não perca a fé
E continue acreditando
E consiga te ajudar
na hora em que você acha que não vai mais conseguir

Quarta-feira, Outubro 17, 2007

060 - 17/10/2007 - Primeira ida a Viena

Acordamos às 5 horas da manhã para ir a Viena. E considerando que estamos quase no inverno e o sol demora mais para nascer, acordamos praticamente no meio da noite. Frio, 8 graus, e muito frio. Muito muito frio.
Levantei junto com a Cláudia, depois o Diego e por fim Gabriel e Davi.
Por uma dessas coisas inexplicáveis do destino, conseguimos chegar no horário certo na estação, o que é muito interessante, já que nunca chegamos na hora quando o assunto é o nosso próprio lazer.
Entramos no trem, ele não apitou, e então partiu.
Viagem tranquila, o único barulho era o nosso, todos rindo e brincando.
Bom mesmo, de verdade.
Fotos, coca-cola congelada, polícia da fronteira.
Pronto, chegamos em Viena, Áustria.
Fotos, casacos fechados, começamos a caminhar. Para onde estávamos ainda não sabíamos. Tínhamos combinado um encontro com o Rodrigo e a Gislene, um casal de brasileiros que está no nosso hotel, mais o filho deles, o Miguel.
Então andamos em linha reta, seguindo o fluxo que parecia ir em direção à saída da estação.
Lá fora avistamos a primeira igreja pela ponta da torre mais alta.
É pra lá mesmo, e viramos para a esquerda tentando alcançar a faixa de pedestres.
"Mau sinal, a calçada está em obras e não tem como atravessar. Vamos seguir mais um pouco."
A rua virou mais para a esquerda e começamos a nos afastar cada vez mais da igreja. A gente só queria seguir reto mas aquilo parecia cada vez mais difícil. A Claudia pegou o celular e ligou para a Gislene que estava fora de Viena. Conversou, ficou sabendo que ela ainda não estava na cidade, e desligou.
'Eu te ligo de novo' seriam as últimas palavras que a Cláudia diria a ela naquele dia.
Voltamos para a estação para tentar atravessar a rua.
Eis que surge o sol.
Não o sol normal, mas aquele soléuzaláço, aquele fogaréu colossal que obrigou a gente a voltar na estação mais uma vez para guardar os casacos no maleiro.
"Me dá uma moeda de 2 euros para trancar o maleiro?". "Ixi, não tem, tem que trocar a nota.".
"Ok!"
Comprei um pacote de batatas chips e um gatorade por algo equivalente a 20 reais e consegui o troco.
Pronto. Casaco trancado e seguimos para a saída.
Para ir à igreja, ainda estávamos tentando ir para a igreja, era só atravessar a rua no sinal logo em frente à porta da estação. Nada de andar para à esquerda, só atravessar a rua em frente.
Chegamos até ela e finalmente conhecemos o local.
Fotos e saímos. Rápido.
E agora? "Liga para a Gislene."
Novamente, por uma outra dessas coisas inexplicáveis do destino, o telefone parou de ligar. Ou melhor, parou de ligar pra ela. Ligava para qualquer pessoa, menos para a Gislene.
Ligava para a Lituânia, mas nao pra ela. "vamos passear a pé mesmo.".
Mas faltava o mapa...
"Liga para o Demis que ele sabe o caminho todo."
OK. E o Demis explicou o caminho todo.
"Obrigado Demis."
Havíamos combinado um passeio junto com o Rodrigo, que estava de carro, então não me preocupei com mapas e endereços dos pontos turísticos. Pensei que seria tudo simples. De carro tudo é simples. Em relação a estar a pé e sem mapa, de carro tudo é simples.
"Vamos a pé mesmo, já sei mais ou menos onde é e eu li que é quase tudo na mesma rua e região."
Começa o passeio mas em cinco minutos paramos na pizzaria para repor energias.
"15 reais cada fatia de pizza..."
"Estou acostumado com os preços da Hungria."
"Credo."
"Por favor, uma pizza pequena, sem coca, e cinco pratos."
Em seguida descemos uma rua, seguindo as instruções do Demis, mas nada de chegar.
Andamos mais e nada. Mais ainda e nada. Bem mais ainda e mais nada ainda.
"Vamos comprar um mapa agora! Aqui! Nessa banca!"
Compramos o mapa.
Aproveitei para perguntar: "Onde é a rua Burg Ring?"
"Próxima quadra..."
Por quê é que tem que ser sempre assim?
Mais dois minutos andando e o Davi dorme ao mesmo tempo em que a bota da Cláudia começa a machucar seu calcanhar.
Sentamos em um banquinho na calçada.
Cláudia: "Compra um carrinho."
"Quê?"
"Um carrinho, de bebê, pra gente por o Davi. E um sapato pra mim, pra andar o dia inteiro com essas botas não dá."
"Ok."
Saímos eu e o Gabriel pra ir comprar carrinho, mas não sem antes ter parado um guarda de trânsito para fazer a pergunta mais inesperada que um guarda de trânsito espera que alguém lhe faça, se é que algum guarda de trânsito fica esperando que alguém lhe faça perguntas: "Oi, por favor, onde eu compro carrinho de bebê?" .
Entramos em um shopping de 7 andares com muitas placas indicativas, todas em alemão.
Começamos pelo primeiro andar e fomos subindo. No quarto andar o Gabriel achou a seção de carrinhos e pronto, tudo resolvido.
Voltamos com o carrinho.
Cláudia: "E o sapato?"
"Merd* de drog* de bost* de sapato... Eu esqueci a merd* do sapato.. Grunff!"
"Gabriel, bora comprar o sapato?"
Fomos de novo. Na segunda loja compramos e voltamos. Um número maior que o tamanho dela. Na Europa não existe sapato para adulto do tamanho que ela quer.
Agora sim, exatamente 4 horas depois de termos chegado já estávamos prontos para começar realmente, verdadeiramente, o passeio.
E então, mais uma vez, por mais uma outra dessas outras coisas do tipo coisas inexplicáveis do outro destino, o passeio foi sensacional!
Castelos, museus, fotos, praças, estátuas, fotos, pessoas, lojas chiquetérrérrimas (uma das quais tirei fotinhola com meu óculos comprado na dita cuja), fotos, uma basílica de deixar qualquer um em estado de graça, fotos, carruagens pela rua, valsa na praça, fotos, gente rindo, fotos, pés doendo, gente feliz. Fotos.
Nós alternávamos o carrinho para que o Gabriel e o Davi pudessem descansar pois o passeio era longo. Mas às 5 horas da tarde as pernas do empurrador do carrinho, no caso, eu, pediram trégua. E assim paramos na praça Sigmund Freud para um descanso.
Olhei o mapa para ver como fazia para voltar de metrô até a estação do trem e depois de alguns baldeios chegamos.
Entramos no trem e nao havia nenhuma cabine vazia. Então o Diego entrou em uma qualquer onde já havia uma mulher.
Nos instalamos e bem na hora do trem partir entra o alemão.
Mal-humorado, ranzinza, pulguento e, bom, deixa pra lá.
O tal alemão tirou a mulher da poltrona alegando que aquela era reservada para ele.
A troca de lugares provocou um rearranjo de senta aqui e senta ali de tal forma que no final das contas o Davi ficou no colo do Diego e o carrinho de bebê no meu colo.
E assim o trem partiu. E o inesperado aconteceu.
A fúria titânica que me possuía era demais e crescia a cada vez que olhava o alemão. Meus pensamentos enegreciam.
Com o sangue pressionando as paredes das artérias sentei-me para dar início àquilo que eu chamei de vingança
pessoal contra o nazista mal-humorado, ranzinza, pulguento e bom, deixa pra lá.
Falei durante 3 horas. Ininterruptamente. Nem eu mesmo acreditei. Nem eu aguentei. Não sou de falar tanto. Cantei também. Fui tão irritantemente insuportável que o alemão levantou-se e saiu da cabine. Preferiu ficar em pé no corredor, para meu regalo. Ou deleite. Ou ambos, não importa. Eu estava muito cansado. Mas valeu a pena.
De alma lavada e com final feliz, chegamos.
Cansados e felizes. Com fotos e felizes. Com fotos e com fome. E com muitas fotos. Quatrocentas e sessenta fotos em um único dia. Muitas fotos, já falei isso?

Sexta-feira, Setembro 07, 2007

Ele tinha os cabelos cacheados, mais ou menos cinco anos, usava uma calça jeans já um pouco gasta nos joelhos. Tênis preto empoeirado, camisa branca de botão, rosto redondinho, daqueles que dão vontade de apertar. Olhava para o chão um pouco à frente de seus próprios pés e parecia que não pensava em nada. Eu olhava para ele com carinho e eu gostava dele.
Observar aquele menino que ficava entretido pegando a areia do chão e jogando de volta me dava uma sensação que há tempos vinha me faltando. Leveza, ou melhor, conforto, ou, melhor ainda, algo mais parecido com o que sentia aquela menina, quando encontrava-se com o fauno no filme "O labirinto do fauno". Alguma coisa como "que bom que você está aqui".
Enquanto eu observava eu via que às vezes ele me olhava e sorria. Um sorriso daqueles que a gente dá para o filho quando vê ele dormindo ou quando quer trocar um carinho à distância, com alguém que a gente gosta. Eu recordei minha infância, lá atrás, longe, quando pegar a areia do chão e jogar de volta era bom, quando não fazer nada e estar ali era bom, quando eu nem sabia que tudo era simples, porque tudo era simples.
Mas agora eu estava ali.
E o ar que estava calmo se agitou.
As veias se inflaram e ficaram visíveis. Os músculos se enrijeceram.
As nuvens fecharam o céu e tudo era frio.
Levantei-me ergui os braços e eu estava forte.
Em pé, já não havia mais criança.
E assim de súbito, e com toda a força desesperada de quem está sem saída, corri.
Contra o vento e contra a chuva, contra a tempestade e contra tudo. O céu era cinza mas não importava. Tudo era pouco e tudo era simples, tudo era fraco e tudo era possível.
Que seja e que venha. Se é inevitável que aconteça logo. E seja breve.
Pois eu ainda quero jogar a areia de volta.
E não vou parar antes de conseguir.